sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ECONOMIA

Inflação teleguiada

A taxa inflacionária brasileira atingiu o maior crescimento dos últimos seis anos, segundo o ponto de referência IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Agora, quando o brasileiro tenta encontrar formas de manter seu consumo equilibrado a partir da alta dos preços, resta saber até quando a atual taxa de inflação persistirá. Contudo, tão importante quanto o crescimento da inflação também é a franqueza com a qual ele é admitido.

É, assim, interessante que as estimativas dos economistas tenham atingido agora, num momento de transição política, proporções mais alarmantes. Habitualmente, cenários menos otimistas da economia nacional costumam gerar contra-argumentos por parte dos setores econômicos do governo, porém, no presente momento, a inflação alta permanece ponto pacífico. A partir daí, seria errado considerar que o adiamento dessa constatação tenha sido deliberado?

Poderá ser instrutivo observar atentamente o que se desenvolverá com a política econômica do novo governo, especialmente se logo mais houver uma melhora na situação inflacionária, uma mudança certamente geradora de pontos positivos ao início da administração da presidente Dilma Roussef.

Seria, então, a política monetária do país um campo extremamente sensível à vontade do poder político? Ou pior, estaria ela à disposição das necessidades da política eleitoral? Mesmo diante de uma possibilidade decepcionante e antidemocrática, creio que a resposta seja ‘sim’.



Por Maricy Ferrazzo


Fontes: Exame, O Globo, Veja, Estadão, G1, Jornal do Comércio, Bloomberg, Economic Times, Financial Times, Telegraph.
Imagem: clipartguide.com

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Combate ao tráfico

Lei da Oferta e da Procura

A atuação da Polícia Militar, Civil e Federal com a ajuda das Forças Armadas nas favelas do Rio surgiu como uma surpreendente ação no longo e falho combate contra o tráfico de drogas. Certamente a vinda ao Rio de Janeiro dos dois grandes eventos esportivos internacionais como a Copa e as Olimpíadas deve ter influenciado tal iniciativa, o que não deixa de ser um fato vergonhoso, pois há muito a manutenção da segurança pública deveria ter sido motivo suficiente para isso.

De qualquer forma, a presença das autoridades nos Morros do Rio finalmente expõe uma população ávida por mudanças, oprimida pela lei do silêncio e governada pelos imperativos do crime. Agora isso pode mudar. Há uma chance de aquelas pessoas poderem viver como cidadãs sem, com isso, terem de colocar a vida em risco. Basta saber, obviamente, se essa condição de liberdade irá perdurar.

Uma das principais perguntas a se fazer é se os soldados das Forças Armadas continuarão nos locais por tempo suficiente, a ponto de impedir a retomada dos traficantes. Contudo, a quantificação desse tempo é muito subjetiva, quantos dias de vigilância serão necessários para acabar de vez com o domínio do crime nos morros da cidade do Rio de Janeiro?

Infelizmente, para responder essa pergunta, apenas outra pergunta: como acabar com o tráfico de drogas eliminando apenas uma parte do negócio? Como extinguir a venda de drogas ilícitas quando, morro abaixo, existem inúmeros consumidores? São esses que patrocinaram as metralhadoras, os veículos, as mortes.

Parece, assim, incompleta a luta contra o tráfico de entorpecentes. Fica uma sensação de que algo ainda está errado, incompleto. Enquanto houver quem queira comprar, haverá sempre quem queira vender. De que adiantará prender os traficantes e os seus cúmplices nessa situação? Outros se aproveitarão da existência da procura pelas drogas, e se transformarão nos sucessores desse tipo de crime.

Assim, parece correto dizer que a presença dos policiais e soldados não deve se limitar apenas ao mundo dos menos favorecidos nas reentrâncias complexas das favelas sobre os morros, mas também deve migrar para as ruas arborizadas e elegantes da cidade, onde muitos contribuem para endossar essa aviltante prática, algoz da organização social e segurança pública.


Por Maricy Ferrazzo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ELEIÇÕES 2010

Candidatos “diferentes” colocam o Brasil no rol das curiosidades da mídia internacional

Não seria provável que a existência de alguns candidatos brasileiros passasse despercebida pela imprensa mundial. Na semana passada a BBC internacional divulgou imagens dos candidatos mais “diferentes” do Brasil, chamando-os de “candidatos malucos”.

A matéria atenta para a frase de um deles, que não se limitou a exemplo do absurdo somente no Brasil: “Vocês sabem o que faz um deputado federal? Eu também não. Mas votem em mim que eu vou descobrir com vocês.” Outra observação divulgada pela BBC foi a candidatura da “mulher em formato de pera” pelo Partido Trabalhista Nacional, que se orgulha quando os eleitores dizem que preferem votar nela a votar nos políticos corruptos.

A agência de notícias internacional AFP também circulou matéria sobre a candidatura da mulher-fruta, de título “Transformando o sex appeal em votos nas eleições do Brasil”, dando ênfase para o forte apelo sexual contido em tal candidatura.

Já o Herald Tribune destacou as tentativas de esportistas aposentados conseguirem uma cadeira no Congresso Nacional: “Depois de longas carreiras no futebol, os dois ex-jogadores agora esperam usar o reconhecimento de seus nomes entre os eleitores brasileiros para se lançarem no meio político.”

É uma pena que o Brasil, cujo sistema democrático de governo vem se consolidando e servindo de exemplo para muitos outros países, tenha que ser mencionado ora como o país do ‘mensalão’, ora como o país dos “candidatos malucos” e/ ou oportunistas.

Por Maricy Ferrazzo

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ELEIÇÕES


Liberdade ou loucura?

Com o início da propaganda eleitoral sendo divulgada em diversos veículos de comunicação, um triste retrato da situação política brasileira se repete. São os variados candidatos aos cargos de extrema importância e responsabilidade de nossa democracia que se apresentam como se toda a instituição democrática fosse, não a base sedimentar da coexistência justa e pacífica, mas um circo.

O momento da propaganda eleitoral é a exposição pública do comprometimento e dos ideais que o candidato pretende representar em nome do povo. Como pode ser aceitável que essa exposição não contenha nem o comprometimento, nem um mínimo conteúdo cidadão? Ao invés disso, depara-se com slogans que fazem troça do próprio Poder Legislativo, ironizando sua existência e, dessa forma, anulando a própria razão de ser do candidato.

A Constituição brasileira garante a liberdade de expressão, assim como também o direito à organização partidária, porém, não há coerência no uso desses direitos para depreciar exatamente a instituição que os garante. Porque as “brincadeiras” de alguns candidatos não estão criticando as políticas corrompidas atuais, mas aparecem a esmo, sem um conteúdo definido, ficando a piada pela piada.

Triste é constatar que há quem vote em tais candidatos. São brasileiros que desconhecem quão tortuosos foram os caminhos da humanidade até alcançarem o princípio democrático. Sem mencionar alguns países orientais, que ainda não permitem o voto, ou não o permitem a todos.

Antes todos tivessem o conhecimento de que nossa democracia é representativa, e nela o voto é o único momento amplo em que emana a vontade direta do povo. Antes todos tivessem a consciência de que os representantes eleitos serão um retrato de quem somos; e que esse retrato fosse de liberdade, mas não de loucura.


Por Maricy Ferrazzo


quinta-feira, 8 de julho de 2010

SOCIEDADE




O extremismo da censura



A desconfiança, o estranhamento e o medo do ‘outro’ são elementos que fazem parte da natureza do homem. Entretanto, basta a iniciativa de um primeiro contato pacífico para que, aos poucos, esse outro deixe de trazer no desconhecimento que representa uma ameaça. Essa possibilidade de aproximação, a capacidade de compreensão e tolerância são características que fazem do Homem um ser racional.

Hoje, quando mesmo depois dos avanços da comunicação, persistem os conflitos étnicos, culturais e religiosos, obviamente se pergunta o que torna uma população inimiga da outra além dos interesses óbvios em disputa. Há o termo xenofobia, ou seja, aversão ao desconhecido, que claramente não se limita às regiões em guerra, está por toda a parte, ocorre todos os dias entre estranhos no metrô, entre vizinhos, entre colegas de trabalho.

Outro termo muito usado pela mídia internacional é o “extremismo”. As facções terroristas, o governo ou o governante são extremistas. Contudo é interessante observar como os termos xenófobo e extremista não atingem certa fatia da população mundial. O dono da multinacional que resolve fazer lobby para degradar a qualidade do meio-ambiente nunca é chamado de extremista, muito embora sua atitude radical repercuta negativamente em grande escala; o político que propõem um projeto de lei discriminador e segregador dificilmente é chamado de xenófobo.

Ontem, uma editora da rede CNN foi demitida ao postar no Twitter um comentário sobre o falecimento do clérigo xiita, Mohammed Hussein Fadlallah, em que afirmava ter grande respeito por sua memória. A jornalista foi acusada de ser simpatizante do Hezbollah e, mesmo depois de ter esclarecido a manifestação de sua opinião, informando que o clérigo havia lutado, dentro do possível, por melhores condições de direitos humanos dentro do Islã, acabou sendo demitida.

O ocorrido com a jornalista é um bom exemplo de como existe uma tendência a agrupar e perpetuar os conflitos impedindo que as pessoas sigam sua própria consciência. O que para muitos poderia ser um passo em direção à paz, uma iniciativa em direção à compreensão e tolerância, para muitos é deserção, traição.

Estará o mundo inteiro em constante guerra? Pois é na guerra que em nome de uma ideologia generalizante se mata um oponente que nunca fez mal a ninguém. É na guerra que é proibido pensar, individualizar. “Ou se está conosco ou se está com eles”. Será esse o novo modus operandi do pensamento contemporâneo?

A rede CNN explicou sua decisão afirmando que o comentário da jornalista havia prejudicado sua credibilidade. Ledo engano, a credibilidade dela está melhor que nunca.


Por Maricy Ferrazzo


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=597MON009
Imagem: worldofstock.com

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CRIME CONTRA O MEIO-AMBIENTE

Democracia doente

Não podemos deixar que transformem em propriedade o que é legado da humanidade

A clara manipulação que está ocorrendo no Congresso Nacional para que o relatório da reforma do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo (PCdoB) seja aprovado é mais um exemplo de conduta vergonhosa em nosso Legislativo. Uma proposta que mal pretende disfarçar os interesses da minoria agricultora no país, passando por cima da mínima noção de responsabilidade ambiental.

O relatório já foi aprovado no Congresso por 13 votos a cinco e vai aguardar aprovação no plenário após as eleições. É interessante observar como essas propostas aparecem em período de transição de mandatos, quando as atenções estão mais esparsas.

Mais uma vez, os membros do Legislativo, cujo papel é representar a vontade do povo brasileiro, estão agindo em favor de seus próprios interesses ou protegidos, arrastando nossa democracia de volta aos tempos do coronelismo. A remoção do deputado ambientalista Ricardo Trípoli (PSDB) da comissão especial dois dias antes da votação é um visível exemplo disso.

Um tema de importância vital – e que o termo ‘vital’ seja entendido no sentido literal – não pode ser conduzido da forma como está acontecendo. Parece ser necessário explicar mais uma vez a esses políticos que o meio-ambiente não é propriedade, é legado. E de todos.

Tal assertiva sugere que seria muito mais justo que uma reforma no Código Florestal fosse posta a referendo (art. 14, CF), para que o povo – real legitimador do governo – se expressasse sobre o assunto. Obviamente que não é do interesse daqueles que não representam a vontade popular que isso ocorra. Principalmente se a opinião dos que perderam tudo com as enchentes do ano passado e do atual forem ouvidos. Ou aqueles que sofreram com as doenças potencializadas pelas altas temperaturas e chuvas constantes, ou pela seca cada vez pior.

Num momento em que o mundo todo discute formas de assumir medidas que impeçam o desmatamento, o Brasil, tão alardeado nas conferências mundiais, vai permitir que tantos passos sejam dados para trás.

A saída é, além de tomar muito cuidado na hora de votar neste ano, exigir que um assunto tão importante como as leis florestais seja discutido por meio de um mecanismo de representação popular direta, já que o Congresso está do lado da moto-serra.


Por Maricy Ferrazzo

Imagens: G1,ANB e Rede Brasil Atual

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SOCIEDADE

Consumidor brasileiro – um Davi diante de vários Golias

Nem todos são politicamente, ecologicamente ou desportivamente ativos, porém, em nosso presente sistema econômico, há algo que todos não têm como escapar de ser: consumidores. Somos consumidores 24 horas por dia, inclusive nas horas de inconsciência, durante o sono, ou mesmo parados, dentro do carro, presos num congestionamento. Não obstante, o consumidor brasileiro ainda não conseguiu o respeito devido que tal significativa atribuição deveria lhe proporcionar.

O Brasil se destaca no plano internacional como um território com grande massa potencial de consumidores, grande parte da recente credibilidade do país é devida à ascensão do poder de compra do brasileiro médio. Os outros países exportadores mantêm grandes olhos na direção do mercado brasileiro, um contingente a ser conquistado. Contudo, o brasileiro quando vai consumir ainda tem a sensação de que está “recebendo um favor” ao invés de sustentar todo o sistema produtivo de seu país. Por que será?

Tratado como se a sua participação crucial no sistema da oferta e demanda fosse meramente dispensável, o brasileiro enfrenta filas enervantes para comprar bens de primeira necessidade (do supermercado à loja de departamentos), tem dores de cabeça intermináveis com planos de operadoras de celular e telefone fixo, retira produtos já danificados das lojas (do notebook ao carro) e contrata serviços que são prestados (quando são) com menos da metade da qualidade oferecida e prometida. Ainda como se já não bastasse ter que procurar os planos de saúde em detrimento da ineficiência do sistema público, volta a encontrar muitas das mazelas das quais tentou escapar.

Por que o consumidor brasileiro é tão desprezado?

São passados 20 anos desde que o Código de Defesa do Consumidor trouxe novas condições de igualdade nas relações de consumo, porém, quem já não se sentiu lesado quando o produto/ serviço pelo qual pagou desconsiderou a obrigação primordial que é a de satisfazer o motivo do consumo em si? Muitas vezes, quando a pessoa lesada processa a empresa que não agiu de boa fé, resta, ainda, a sensação de um dano não meramente individual, mas geral, referente à postura constante da empresa em face da responsabilidade de sua atuação. Algumas, recordistas de reclamações e intimações, deveriam ter de prestar mais minuciosas explicações aos órgãos reguladores, pois muitas vezes fica implícita a falta de boa fé generalizada.

Muitos se sentem desmotivados em exigir seus direitos diante de grandes conglomerados ou multinacionais; a ponto de tal disparidade de poderes remontar à história da luta do pequeno Davi contra o gigante Golias, no entanto, é muito importante que os direitos previstos por lei sejam constantemente exigidos para que o consumidor não tenha sua importância ainda mais diminuída.

Para isso, o consumidor conta com três aliados na hora de se defender de abusos nas relações de consumo: além do Código de Defesa do Consumidor, ele pode apelar para a imprensa (as seções de reclamações dos jornais estão cheias dessas manifestações) ou para os espaços de divulgação na Internet e, o mais importante método de todos: simplesmente deixar de consumir aquele produto ou serviço que tenha lhe causado alguma espécie de dano.


Por Maricy Ferrazzo