quinta-feira, 8 de julho de 2010

SOCIEDADE




O extremismo da censura



A desconfiança, o estranhamento e o medo do ‘outro’ são elementos que fazem parte da natureza do homem. Entretanto, basta a iniciativa de um primeiro contato pacífico para que, aos poucos, esse outro deixe de trazer no desconhecimento que representa uma ameaça. Essa possibilidade de aproximação, a capacidade de compreensão e tolerância são características que fazem do Homem um ser racional.

Hoje, quando mesmo depois dos avanços da comunicação, persistem os conflitos étnicos, culturais e religiosos, obviamente se pergunta o que torna uma população inimiga da outra além dos interesses óbvios em disputa. Há o termo xenofobia, ou seja, aversão ao desconhecido, que claramente não se limita às regiões em guerra, está por toda a parte, ocorre todos os dias entre estranhos no metrô, entre vizinhos, entre colegas de trabalho.

Outro termo muito usado pela mídia internacional é o “extremismo”. As facções terroristas, o governo ou o governante são extremistas. Contudo é interessante observar como os termos xenófobo e extremista não atingem certa fatia da população mundial. O dono da multinacional que resolve fazer lobby para degradar a qualidade do meio-ambiente nunca é chamado de extremista, muito embora sua atitude radical repercuta negativamente em grande escala; o político que propõem um projeto de lei discriminador e segregador dificilmente é chamado de xenófobo.

Ontem, uma editora da rede CNN foi demitida ao postar no Twitter um comentário sobre o falecimento do clérigo xiita, Mohammed Hussein Fadlallah, em que afirmava ter grande respeito por sua memória. A jornalista foi acusada de ser simpatizante do Hezbollah e, mesmo depois de ter esclarecido a manifestação de sua opinião, informando que o clérigo havia lutado, dentro do possível, por melhores condições de direitos humanos dentro do Islã, acabou sendo demitida.

O ocorrido com a jornalista é um bom exemplo de como existe uma tendência a agrupar e perpetuar os conflitos impedindo que as pessoas sigam sua própria consciência. O que para muitos poderia ser um passo em direção à paz, uma iniciativa em direção à compreensão e tolerância, para muitos é deserção, traição.

Estará o mundo inteiro em constante guerra? Pois é na guerra que em nome de uma ideologia generalizante se mata um oponente que nunca fez mal a ninguém. É na guerra que é proibido pensar, individualizar. “Ou se está conosco ou se está com eles”. Será esse o novo modus operandi do pensamento contemporâneo?

A rede CNN explicou sua decisão afirmando que o comentário da jornalista havia prejudicado sua credibilidade. Ledo engano, a credibilidade dela está melhor que nunca.


Por Maricy Ferrazzo


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=597MON009
Imagem: worldofstock.com

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CRIME CONTRA O MEIO-AMBIENTE

Democracia doente

Não podemos deixar que transformem em propriedade o que é legado da humanidade

A clara manipulação que está ocorrendo no Congresso Nacional para que o relatório da reforma do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo (PCdoB) seja aprovado é mais um exemplo de conduta vergonhosa em nosso Legislativo. Uma proposta que mal pretende disfarçar os interesses da minoria agricultora no país, passando por cima da mínima noção de responsabilidade ambiental.

O relatório já foi aprovado no Congresso por 13 votos a cinco e vai aguardar aprovação no plenário após as eleições. É interessante observar como essas propostas aparecem em período de transição de mandatos, quando as atenções estão mais esparsas.

Mais uma vez, os membros do Legislativo, cujo papel é representar a vontade do povo brasileiro, estão agindo em favor de seus próprios interesses ou protegidos, arrastando nossa democracia de volta aos tempos do coronelismo. A remoção do deputado ambientalista Ricardo Trípoli (PSDB) da comissão especial dois dias antes da votação é um visível exemplo disso.

Um tema de importância vital – e que o termo ‘vital’ seja entendido no sentido literal – não pode ser conduzido da forma como está acontecendo. Parece ser necessário explicar mais uma vez a esses políticos que o meio-ambiente não é propriedade, é legado. E de todos.

Tal assertiva sugere que seria muito mais justo que uma reforma no Código Florestal fosse posta a referendo (art. 14, CF), para que o povo – real legitimador do governo – se expressasse sobre o assunto. Obviamente que não é do interesse daqueles que não representam a vontade popular que isso ocorra. Principalmente se a opinião dos que perderam tudo com as enchentes do ano passado e do atual forem ouvidos. Ou aqueles que sofreram com as doenças potencializadas pelas altas temperaturas e chuvas constantes, ou pela seca cada vez pior.

Num momento em que o mundo todo discute formas de assumir medidas que impeçam o desmatamento, o Brasil, tão alardeado nas conferências mundiais, vai permitir que tantos passos sejam dados para trás.

A saída é, além de tomar muito cuidado na hora de votar neste ano, exigir que um assunto tão importante como as leis florestais seja discutido por meio de um mecanismo de representação popular direta, já que o Congresso está do lado da moto-serra.


Por Maricy Ferrazzo

Imagens: G1,ANB e Rede Brasil Atual

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SOCIEDADE

Consumidor brasileiro – um Davi diante de vários Golias

Nem todos são politicamente, ecologicamente ou desportivamente ativos, porém, em nosso presente sistema econômico, há algo que todos não têm como escapar de ser: consumidores. Somos consumidores 24 horas por dia, inclusive nas horas de inconsciência, durante o sono, ou mesmo parados, dentro do carro, presos num congestionamento. Não obstante, o consumidor brasileiro ainda não conseguiu o respeito devido que tal significativa atribuição deveria lhe proporcionar.

O Brasil se destaca no plano internacional como um território com grande massa potencial de consumidores, grande parte da recente credibilidade do país é devida à ascensão do poder de compra do brasileiro médio. Os outros países exportadores mantêm grandes olhos na direção do mercado brasileiro, um contingente a ser conquistado. Contudo, o brasileiro quando vai consumir ainda tem a sensação de que está “recebendo um favor” ao invés de sustentar todo o sistema produtivo de seu país. Por que será?

Tratado como se a sua participação crucial no sistema da oferta e demanda fosse meramente dispensável, o brasileiro enfrenta filas enervantes para comprar bens de primeira necessidade (do supermercado à loja de departamentos), tem dores de cabeça intermináveis com planos de operadoras de celular e telefone fixo, retira produtos já danificados das lojas (do notebook ao carro) e contrata serviços que são prestados (quando são) com menos da metade da qualidade oferecida e prometida. Ainda como se já não bastasse ter que procurar os planos de saúde em detrimento da ineficiência do sistema público, volta a encontrar muitas das mazelas das quais tentou escapar.

Por que o consumidor brasileiro é tão desprezado?

São passados 20 anos desde que o Código de Defesa do Consumidor trouxe novas condições de igualdade nas relações de consumo, porém, quem já não se sentiu lesado quando o produto/ serviço pelo qual pagou desconsiderou a obrigação primordial que é a de satisfazer o motivo do consumo em si? Muitas vezes, quando a pessoa lesada processa a empresa que não agiu de boa fé, resta, ainda, a sensação de um dano não meramente individual, mas geral, referente à postura constante da empresa em face da responsabilidade de sua atuação. Algumas, recordistas de reclamações e intimações, deveriam ter de prestar mais minuciosas explicações aos órgãos reguladores, pois muitas vezes fica implícita a falta de boa fé generalizada.

Muitos se sentem desmotivados em exigir seus direitos diante de grandes conglomerados ou multinacionais; a ponto de tal disparidade de poderes remontar à história da luta do pequeno Davi contra o gigante Golias, no entanto, é muito importante que os direitos previstos por lei sejam constantemente exigidos para que o consumidor não tenha sua importância ainda mais diminuída.

Para isso, o consumidor conta com três aliados na hora de se defender de abusos nas relações de consumo: além do Código de Defesa do Consumidor, ele pode apelar para a imprensa (as seções de reclamações dos jornais estão cheias dessas manifestações) ou para os espaços de divulgação na Internet e, o mais importante método de todos: simplesmente deixar de consumir aquele produto ou serviço que tenha lhe causado alguma espécie de dano.


Por Maricy Ferrazzo

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Outros motivos para nacionalismo além da Copa

Muito embora as expectativas insurgentes em época de Copa do Mundo sejam por causa do futebol, há alguns fatos que todo brasileiro deveria saber. São eles os agentes da nova projeção geopolítica do Brasil no plano internacional.

Em detrimento da recente decisão do Brasil de apoiar o enriquecimento de urânio do Irã, o ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, Rubens Barbosa, falou à mídia sobre a crecente presença internacional do Brasil. Segundo ele, primeiramente, há que se considerar todas as mudanças conjecturais pelas quais o mundo vem passando nos últimos anos, desde o âmbito social até o político e econômico. O fim da era do unilateralismo norte-americano possibilitou o surgimento de diversas outras fontes de poder descentralizado. É nesse momento que o Brasil começa a galgar um caminho mais relevante para maior credibilidade internacional. Segundo o ex-embaixador, o Brasil estaria “se beneficiando da desordem internacional”.

O motivo inicial para esse alargamento da presença brasileira junto à comunidade internacional seria a questão doméstica. A democracia brasileira teria conseguido se fortalecer durante os momentos de estabilidade dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, também relacionados ao equilíbrio inflacionário, à situação fiscal em boas condições e a taxa de câmbio flutuante. Todos esses fatores, mais o crescimento industrial tão ou quase tão expoente como o crescimento da classe consumidora, teriam dado o esteio econômico basimentar para o processo de fortalecimento político.

Nesse quesito, a globalização de empresas brasileiras são provas de sua modernização. Outro fator marcante seria a diversificação do setor de serviços e o desenvolvimento do setor agricultor, cuja presença no mercado externo é protagonista. Viu-se o risco país diminuir e o capital estrangeiro voltar seu olhar perspicaz para essa direção.

De acordo com as estatísticas de diversos órgãos de regulação econômica internacional (Banco Mundial, OMC), Brasil e China são os principais países liderando o ranking de expoentes mundiais em crescimento, porém com uma essencial diferença: o Brasil prospera dentro de um sistema democrático, que muito embora tenha falhas e ainda precise de reformas, ainda é reconhecidamente credível diante do mundo. Diferente do que ocorre na China, onde o capital é atraído apoiado na exploração da mão-de-obra barata e desprotegida legalmente.

Dessa forma, como novo e significativo “player” do tabuleiro geopolítico, a voz do Brasil não pode mais ser ignorada em questões mundialmente relevantes como direitos humanos, comércio internacional, mudança climática, energia, entre outras de grande importância.

O histórico pacífico do país tem também em muito contribuido para a sua credibilidade junto às organizações multilaterais, onde o Brasil é conhecido pela capacidade de buscar e aplicar “consensos”. No plano social, a possibilidade da coexistência de diversas etnias e religiões em solo brasileiro também é um fator que chama a atenção, especialmente quando o mundo sofre com manifestações xenófobas e a existência do terrorismo. Obviamente, faz-se aí a ressalva dos casos isolados, não em pequena quantidade, que todos os dias ocorrem no país, no entanto, de forma geral, não têm sido suficientes para inclur o Brasil na lista dos países em conflitos culturais-religiosos. Além disso, diametralmente oposto à antiga racionalidade da Guerra-Fria, hoje, o fato de o Brasil não ser uma potência nuclear tem aumentado seu poder de influência.

Segundo o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, será o Brasil a nova superpotência econômica nos próximos 15 anos, porém, se as reformas necessárias forem realizadas, basicamente as reformas: tributária, política, trabalhista e da securidade social.

É melhor o brasileiro torcer para isso também.


Por Maricy Ferrazzo

Fonte: BBC International

sexta-feira, 21 de maio de 2010

ECO-ECONOMIA II

Marketing Ecológico - O que é negócio também pode se tornar exemplo

Várias empresas estão adotando o ‘marketing ecológico’ para divulgarem seus produtos ao consumidor. As campanhas publicitárias vão além de vincular o conceito de sustentabilidade à marca, elas ‘incentivam’ o consumidor a participar ou se comprometer a uma causa ambiental.

A Danone, por exemplo, com o slogan “Danoninho pra Plantar” oferece um sachê com sementes, anexo à bandeja de iogurte, para plantar no próprio potinho após o consumo do produto. A criança também pode ‘cultivar’ uma árvore virtual na “Floresta do Dino” ao acessar o site da marca. Para cada árvore virtual cultivada, o consumidor contribui para o reflorestamento de um metro quadrado de floresta por meio da parceria com o Instituto de Pesquisas Ecológicas. A Avon começou um projeto parecido chamado “Viva o amanhã mais verde” – cada $ 2,00 doados representam a vida de uma nova árvore. A empresa de cosméticos doou, inicialmente, um milhão de dólares para plantar um milhão de árvores na Mata Atlântica. A campanha é feita junto com a UNEP – Programa Nações Unidas para o Meio Ambiente. O Sport Club Corinthians e o Banco Cruzeiro do Sul adotaram o slogan: “Jogando pelo meio ambiente”, que promete plantar 100 espécies de plantas nativas por gol feito. As mudas serão cedidas ao governo estadual paulista, que irá disponibilizar a área para o plantio.

Em 2007, a Ypê saiu na frente com o marketing: “Ypê plantando árvores para você”, com a ONG SOS Mata Atlântica, no qual plantou 200 mil árvores em Campinas, SP. Além de impulsionar as vendas do ‘detergente’, que contém tensoativo biodegradável, a marca foi vencedora do prêmio Folha Top of Mind, na categoria Top Meio Ambiente, de 2009.

Investir na preservação da natureza é um ótimo negócio, pois só traz benefícios – ninguém perde, todos ganham, além de agregar valor positivo à marca. Nenhuma corporação quer ter seu nome relacionado a um produto que desrespeita o meio ambiente e não valoriza o consumidor. Esta é uma das razões pela qual se combate tanto o comércio pirata, que passa longe de qualquer controle de qualidade. Os preços baixos não compensam os prejuízos materiais e ambientais que causam. Por isso, apesar da iniciativa de ‘plantar’ ser boa, ela não é suficiente para compensar as emissões de CO2 na atmosfera, se as empresas não controlam ou evitam que outros poluentes cheguem ao ar. De acordo com o Instituto Ecoar, em média cada árvore absorve 180 kg de CO2 em 30 anos.

Logística Reversa – Algumas empresas fazem ações mais efetivas para amenizar futuros danos na natureza como, por exemplo, evitar o descarte do lixo eletrônico em lugares inadequados. A indústria eletrônica e entidades das mais variadas áreas engajadas nesse mesmo objetivo disponibilizam postos de coleta. A empresa HP brasileira recebe baterias e impressoras descartadas pelos clientes, nas lojas de serviços autorizados. Após a coleta, o material é encaminhado para dois centros próprios da HP para reciclagem nos EUA. A fabricante de celulares americana Motorola, assim como a Apple e Sony, recolhe os próprios equipamentos usados para serem reaproveitados na linha de produção. O banco Santander oferece aos clientes que possuem o cartão Van Gogh o serviço “Descarte Certo” de coleta e transporte do lixo eletrônico. O caminho inverso do consumidor de volta à empresa é conhecido como ‘logística reversa’, ou seja, a reciclagem de equipamentos usados. A Natura e o Boticário investem na reciclagem de suas embalagens, que podem ser devolvidas por meio de consultores ou nas lojas, respectivamente.

A Natura, por exemplo, vai mais além, ela mantém um controle rigoroso de cada etapa da cadeia de produção. A empresa dispõe, em seu site, relatórios anuais detalhados do desempenho ambiental. A linha de sabonetes Ekos é feita por 263 famílias de diferentes comunidades na Amazônia, utilizando sistemas que conservam cerca de 100 km de floresta, e mantêm três mil árvores nativas em pé. Em 2009, a Natura foi eleita a ‘empresa mais admirada do Brasil’, no item responsabilidade social, da revista Carta Capital.

Quando o marketing ecológico se torna um compromisso com a sociedade e com o planeta, sem alvejar apenas o lucro, ele supera as expectativas e firma parceria com o consumidor, que é seu maior beneficiário. Porque cuidar do planeta é responsabilidade de todos.


Por Joelma Godoy de Mello


Para consultar empresas e produtos amigos da natureza:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI8493-15224,00.html

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COMPORTAMENTO


O vexame que virou negócio


A ex-estudante do curso de Turismo da Uniban, Geisy Arruda, após ter processado a universidade devido ao seu quase linchamento, já apareceu em programas de televisão, foi destaque no desfile de Carnaval do Rio e agora vai lançar uma linha de vestidos cor-de-rosa numa estranha alusão ao famigerado vestido que despertou a ira de inúmeros estudantes em outubro do ano passado.

Segundo o site oficial da agora modelo e empresária, a coleção de vestidos se chamará “Rosas Divinos” e estará à venda no site, com a promessa de não serem tão curtos quanto o vestido que a lançou como figura pública (na época da confusão o vídeo que mostra o acontecido na Uniban teve milhões de acessos na Internet e virou notícia em diversos sites e jornais do mundo todo).

Há 50 anos, um incidente como o ocorrido com Geisy teria isolado a jovem da sociedade, por valores hoje quase extintos. Contudo, além da especulação da mídia tê-la tornado outro desses espectros pop, o banimento moral que lhe ocorreu naquele dia na faculdade se tornou substância inspiradora para sua própria iniciativa comercial.

Mais um exemplo de como o imediatismo e as novas ferramentas de comunicação estão possibilitando a criação desses modismos tão superficiais quanto efêmeros, mas que, aos poucos, estão instituindo um desligamento moral do conteúdo existente em cada produto de nossa sociedade consumista, instaurando uma apreciação que não leva em conta se algo é bom ou mau, contanto seja novo e inédito.
Por Maricy Ferrazzo
Imagem: veja.com

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DIÁLOGO AMBIENTAL


Conto sobre uma aula de História – nosso presente num futuro possível


Um dia também seremos protagonistas nas aulas de História. O que ensinarão sobre nós?


A um milênio de nossa época, um garotinho comparece a sua aula de História. O tema do dia é o período da Idade do Quase-Fim, mais conhecido como Era das Trevas II, ocorrido durante o vigésimo-primeiro milênio segundo o antigo calendário cristão.

O professor começa a explicar esse remoto período extremamente importante na formação dos alunos, por conter uma lição de ética humana, servindo como um conhecimento agregador de valores e consciência essenciais para a construção e manutenção da sociedade atual.

“A Idade do Quase-Fim ocorreu há aproximadamente mil anos, e recebeu esse nome exatamente porque em tal época o planeta quase enfrentou a extinção de todas as formas de vida que nele coexistiam”, conta o professor. O garotinho ao ouvir tal informação sente certa agonia, pois a ideia de que tudo o que existe um dia quase acabou lhe era extremamente assustadora. O professor continua:

“O perigo pelo qual a população do mundo inteiro passou foi causado por atitudes anti-sustentáveis que visavam as vantagens na época conhecidas por lucro, e que desconsideraram as consequências que a constante exploração do ecossistema poderia causar a médio e longo prazo”.

Um outro aluno levanta o braço e pergunta: “O que é lucro?”

O professor, então, explica que a palavra ‘lucro’ era o tema usado no sistema econômico antigo para designar uma vantagem advinda de alguma atividade que rendesse mais dinheiro, ou mais crédito.

“E por que precisavam de mais dinheiro ou crédito?”

“Porque através da posse do dinheiro as pessoas poderiam fazer mais dinheiro, e naquela sociedade uma pessoa só poderia viver bem se o tivesse”.

O garotinho franziu a testa, estranhando. Estava um pouco difícil compreender essa parte da história. Se na era do Quase-Fim eles estavam prestes a enfrentar inúmeros desastres por causa das medidas não-sustentáveis, então por que continuar fazendo mais e mais lucro ou dinheiro? Do que iria adiantar ter um monte de dinheiro se não haveria mais chances de se viver? Ele resolveu reclamar:

“Professor, desculpe, mas não faz sentido, uma sociedade totalmente dedicada à busca do lucro enquanto o planeta se deteriorava rapidamente... “

O professor compreende a dificuldade dele e tenta esclarecer: “Acontece que você tem que considerar que mil anos atrás a mentalidade dos homens não era tão desenvolvida como era agora. Veja este exemplo: em várias cidades bastante populosas algumas pessoas jogavam lixo nas ruas durante períodos de chuva contínua, desconsiderando que a estrutura urbana toda asfaltada não podia escoar satisfatoriamente a água acumulada, o que causava enchentes e destruía partes inteiras da cidade, matando pessoas e desabrigando muitas outras.”

O menino arregala os olhos, chocado. Uma menina também participa:

“É verdade que houve uma época em que as ruas das cidades estiveram cheias de veículos a ponto das pessoas não conseguirem se locomover mais?”

“Sim, é verdade”, responde o professor. “As cidades estavam cada vez maiores e as pessoas não queriam mais caminhar, além de não terem desenvolvido os meios de transporte eficientes e sustentáveis que temos hoje, mil anos depois. O que acontecia era que todos queriam ter seu próprio automóvel, mas o espaço urbano acabou se esgotando para tantos veículos, de forma que em pouco tempo as ruas ficaram apinhadas deles e todos presos no mesmo lugar por horas.”

Algumas risadas ecoaram na classe e outro aluno comentou: “Que ridículo! Por acaso eles não tinham desenvolvido cérebro no século XXI?” Mais risadas. O professor não aprovou.

“Vocês não devem rir disso. Foi a precariedade dessa época que ensinou ao Homem a construir um mundo melhor, o qual vocês habitam. Muitos tiveram que sofrer e perecer para hoje estarmos em condições melhores.”

O garotinho resolveu perguntar novamente: “Professor, não entendo como puderam ter desenvolvido um transporte coletivo eficiente como os trens no século XX e chegarem ao XXI tão individualistas e poluidores com os chamados carros...”

“Bom, existia nesse sistema econômico um formato que praticamente demandava o uso do automóvel. O consumismo alienado da época fazia com que as pessoas acreditassem que ter bens além das necessidades reais as inseriam melhor socialmente, o que atualmente já foi superado. E em relação ao transporte ferroviário, certamente teria sido uma forma de melhorar as condições do trânsito, mas devemos lembrar que todos os meios de transporte da época ainda não haviam sido remodelados de forma a utilizarem energia sustentável renovável”, explicou o professor.

“Então além de ficarem presos nas ruas das próprias cidades eles ainda poluíam a atmosfera? Será que não havia ninguém que percebesse como isso não era inteligente?” perguntou a aluna.

“Havia pessoas conscientes, que tinham enxergado o perigoso caminho que estava sendo trilhado, mas eram poucas em relação à maioria, principalmente porque em grande parte do mundo as pessoas nem sempre tinham a chance de serem educadas e desenvolverem capacidade crítica.”

“Que absurdo! Mas e os governantes, eles podiam fazer alguma coisa, não podiam?”

O professor balançou a cabeça. “Podiam, mas relutavam demais em terem iniciativas, mais uma vez por causa daqueles interesses econômicos. Muitos devem ter se arrependido, pois tiveram que assistir as muitas desgraças que se seguiram à abstenção de suas atitudes...”

O garotinho levantou a mão mais uma vez: “É verdade que eles matavam muitos animais?”

“Sim. Diferentemente de épocas ainda mais remotas quando o homem não dominava o sistema de plantações para subsistência, no século XXI muitos animais morreram para dar lugar à estradas, resorts de luxo, ou simplesmente porque se tornaram iguarias alimentares exóticas.”

As crianças todas fizeram caretas. Era realmente cruel.

“E depois chegou o momento em que as pessoas se perguntavam por que não viam mais os bichinhos que davam tanta beleza ao mundo...

“E o que aconteceu depois?” perguntaram.

“Depois chegou a época do desespero. O planeta começou a dar os primeiros sinais das consequências que estavam por vir. Houve alterações climáticas que dizimaram várias espécies, desequilibrando o ecossistema. Essas mesmas alterações de temperatura desenvolveram organismos novos que se mostraram nocivos à saúde do homem. Novas doenças apareceram. O calor excessivo em algumas regiões causou a superpopulação de espécies que asfixiaram outras. O ar poluído deu cabo de mais algumas. O desmatamento das florestas também. Surgiram zonas desertificadas, o solo rachou e abalou estruturas de cidades inteiras, derrubando construções. As chuvas intensas e constantes também. Muitos morreram soterrados. Os buracos na camada de ozônio comprometeram as temperaturas oceânicas, alteraram a formação de ventos, tsunamis atingiram faixas litorâneas e sepultaram ilhas e seus habitantes para sempre no fundo do mar.

Os alunos estavam todos assombrados.

“E o Homem continuou poluindo. Produtos industrializados com embalagens plásticas em excesso, e mais uma infinidade de produtos descartáveis desse material que não era reciclada. Lixo tóxico envenenou o solo, pilhas, baterias, etc. Mais árvores eram derrubadas todos os dias, as zonas de purificação do ar foram escasseando. O solo para plantio era fustigado por secas e por períodos de enchente. De repente, faltou comida. Os preços subiram. Muitos não tiveram mais como se alimentar. Milhões de pessoas morreram. E, então, foi dado o golpe final. O calor extremo e a ausência de posturas ambientais éticas fizeram com que a água potável restante diminuísse exponencialmente. Logo, deixou de haver água para muitos, o que acabou por desestruturar as construções sociais e políticas do planeta. Houve invasões de países com nascentes e, por fim, a guerra.

Silêncio na classe.
Até que alguém levantou a mão, timidamente:

“E então, professor, o que aconteceu? O que aconteceu com todos?”

“Bem, então, fizemos uma escolha.”

“Uma escolha?”

“Sim. Escolhemos recomeçar e compreendemos que não há como construir nada se o princípio da vida não for respeitado.”

“E o que teria acontecido se não tivéssemos feito essa escolha, professor?”

“Não estaríamos aqui agora.”

Termina a aula de História daquele dia. Os alunos ficam agradecidos. Não pelo fim da aula, mas sim porque estudar o século XXI era muito terrível. Ainda bem que ele acabou, e bem.



Por Maricy Ferrazzo



Imagem: meme.yahoo.com/bio_logica/2/